Escolha repartir

Escolha repartir

Hoje, sem motivo aparente, me lembrei de um episódio que vivi há alguns anos, numa manhã fria. Era uma daquelas manhãs em que o vento gelado corta o rosto e todos parecem apressados, buscando abrigo. Mas um momento simples mudou completamente o meu dia.

Ao passar por uma calçada, vi um morador de rua deitado, abraçado ao seu cachorro. A cena, apesar da dureza, transmitia ternura e cumplicidade. Movido pelo desejo de amenizar aquele frio, comprei uma porção de pão de queijo e entreguei a ele, esperando talvez um sorriso ou um simples “obrigado”. O que me surpreendeu foi o gesto seguinte: ele pegou a porção e, sem hesitar, passou a entregar cada unidade inteira de pão de queijo ao seu fiel companheiro, revezando entre si e o cachorro, como quem faz questão de dividir o melhor que tem.

A imagem me despertou curiosidade. Perguntei por que ele fazia questão de dividir, mesmo tendo tão pouco. A resposta, singela e profunda, ficou comigo: aquele cachorro era seu melhor amigo, quem o aquecia nas noites frias e o protegia enquanto dormia. Disse ainda que, para agradecer tamanha lealdade, oferecer o melhor que tinha era o mínimo que podia fazer.

Guardei esse momento comigo. Sempre que penso nele, lembro que, mesmo diante da escassez, há quem escolha repartir, mostrando que a verdadeira riqueza está no afeto e na gratidão. Às vezes, são gestos simples que nos ensinam as lições mais valiosas.

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